Conteúdo é o Novo Currículo? Quando Estar nas Redes Vira Parte do Trabalho
No início, eram as blogueiras. Postavam seus looks do dia (vários por dia, aliás) na frente de salas de desfiles internacionais, descendo de carros enormes, dando pulinhos em esquinas badaladas mundo afora.
A evolução da espécie foram as influenciadoras. Dividindo a vida e a intimidade total, inundaram os seguidores com imagens reforçando o que sempre chamei de #AvidaPerfeitaDoInsta. Kim Kardashian, abelha-rainha absoluta desta colmeia, influenciou tanto que criou seguidoras/influenciadoras que se fizeram à sua imagem e semelhança.
Então, chegaram os creators ou criadores de conteúdo. O look do dia já não era (tão) importante. A vida pessoal até pode ficar de fora. A influência fica, mas a autenticidade do conteúdo é que reina.
É dentro desta caixinha de criadores de conteúdo que chegamos a uma nova fase nas redes sociais, essa adorável e infernal caixinha que nos une: a fase do conteúdo PJ, gerado por profissionais liberais e funcionários de empresas. Para essa última, tem até a sigla em inglês: EGC (employee generated content).
O mercado de moda sempre foi bom nisso. As editoras, stylists e outras figuras da cena fashion, desde sempre, são personagens do Instagram também. Mas essa tendência se espalhou rapidamente. Com as redes sociais virando a principal fonte de “informação” da população mundial, empresas até então pouco conectadas ao mundo da imagem começaram a entrar na onda da influência também.
Você já deve ter sido impactado por algum corretor imobiliário cheio de carisma ao mostrar um apartamento incrível à venda. No mercado imobiliário dos Estados Unidos, aliás, 63% dos corretores afirmam usar essas plataformas principalmente para promover imóveis. Tem médico virando celebridade ao usar este canal para discorrer sobre sua especialidade (cuidado, tá? Nem todo mundo que é bom de Insta é bom de cirurgia também). Tem até vídeos divertidos de funcionários em bastidores de lojas de produtos para a construção civil, já viu?
A lista de profissões impactadas pelas redes é longa: publicitários, artistas, políticos, educadores. E até jornalistas, que, como já falei aqui, passaram a ser chamados de INFOENCERS ou NEWSFLUENCERS. Mesmo em áreas historicamente mais avessas ao marketing, como as ciências exatas, universidades e centros de pesquisa já discutem letramento midiático e de redes como ferramenta essencial para combater a desinformação e o negacionismo. Aliás, negacionistas jogam brilhantemente o jogo das redes, já notou?
“Conteúdo é o novo currículo” é o que diz o site da Flint, plataforma de educação criada por Christian Rôças para, entre outras coisas, ensinar colaboradores de outras empresas a se comunicar a partir das redes. Para ele, esse movimento é um sinal de amadurecimento. “Creator”, ele afirma, não é necessariamente uma profissão, mas sim uma habilidade: posicionar a oratória, a personalidade e a marca pessoal em diferentes meios, inclusive nas redes. “Um publicitário não precisa largar tudo para virar influencer. Ele continua publicitário, mas agora aprende a gravar vídeos para suas redes.”
Comunicar bem seu serviço ou produto a partir das redes é válido, claro. Mas há limites éticos e morais que devem ser seguidos pelos profissionais (ou criadores de conteúdo?). Quando um profissional com o peso de um médico, por exemplo, passa a entender mais de criação de conteúdo do que de sua especialidade, o resultado é catastrófico. Cabe a nós, pacientes (ou seguidores?), estarmos de olho.



