Ansiedade ou Estratégia: O que move o Uso de IA nas Empresas
Estamos ou não vivendo uma “bolha de IA”? Como diria Gloria Pires, não sou capaz de opinar. Enquanto grandes especialistas do mundo todo tentam responder esta pergunta, a discussão que vale pra mim é outra. A percepção de que, por trás desse barulho todo, existe um mecanismo antigo e bastante humano:
O medo de ficar para trás.
O mundo corporativo está sofrendo de FOMO (Fear Of Missing Out). Esta praga, que se instalou em nós com a chegada das redes sociais, mas costumava contaminar apenas pessoas físicas, agora parece que “pega” também em empresas.
Este ano marcou a corrida afobada de companhias do mundo todo para adotar IA em suas operações. Claro, para alguns setores e serviços, ela muda tudo, imediatamente. Mas será que todas as empresas sabem o que fazer com isso? Indo além: será que todas elas precisam mesmo de IA?
Esse movimento segue um padrão. A pesquisadora norte-americana Brené Brown, conhecida por sua pesquisa sobre coragem, vulnerabilidade, vergonha e empatia, tem falado sobre isso. Segundo ela, boa parte das decisões de investir em tecnologia nasce menos de estratégia e mais de ansiedade.
É o pavor de ser a liderança que não entendeu o futuro.
A sensação de que não estamos fazendo nada diante de algo tão revolucionário vira um impulso para as escolhas rápidas, caras e pouco fundamentadas. Quando esse sentimento se instala, entra a urgência e sai o planejamento. Aqui a prova:
88% das empresas dizem usar IA em alguma função
Quase dois terços ainda estão apenas testando.
Só um terço conseguiu escalar soluções.
Apenas 39% viram impacto financeiro, quase sempre pequeno (McKinsey).
Esse hiato entre investimento e resultado aparece também no Brasil. Cerca de 98% das empresas usam IA só em versão experimental, principalmente no marketing.
É o “platô da IA”: você até entra em campo. Mas não muda o jogo.
Se existe ou não uma bolha no setor, saberemos em breve. O que estamos vendo, de fato, são empresas criando, dentro de casa, várias “microbolhas”: projetos que nascem do entusiasmo coletivo, consomem tempo e recursos e, muitas vezes, desaparecem antes de mostrar qualquer impacto real (houve o boom do Metaverso, lembra?). É como se o mercado corporativo estivesse operando em “modo trend” do TikTok.
A vontade de contar ao mundo que “está na trend” é tanta que já tem até “AI washing”. É quando uma empresa anuncia que usa IA só para passar uma imagem de inovação, mesmo que, por dentro, nada tenha mudado de verdade.
Como aponta um artigo da MIT Technology Review, quando um projeto de IA fracassa, culpam-se os dados, o time, a infraestrutura. O que quase nunca se discute é a decisão de investir antes mesmo de entender o uso da tecnologia.
E a sua empresa, precisa mesmo de IA agora?
*Com a colaboração de Bruna Borelli…



